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"Estou de Volta"

Como já vem sendo habitual há alguns anos a esta parte vou passar uns dias de férias ao sul de França (Altos Pirinéus), pois sou um amante confesso da alta montanha, que muito me fascina.
Desta vez levei comigo a minha asfáltica com intenção de "trepar" três dos grandes mitos do ciclismo mundial . . . Hautacam/Tramassel, Tourmalet e Soulor/Aubisque.
Alojei-me em Ayzac-Ost junto a Argelés-Gazost uma maravilhosa cidade dos Altos Pirinéus e um centro nevrálgico do ciclismo, uma autêntica peregrinação de malta para trepar os grandes mitos do ciclismo.
Delineei um dia para uma subida e outro para recuperação, apesar de ter de efectuar as subidas ao Tourmalet e Aubisque em dias seguidos derivado às más previsões meteorológicas com chuva e nevoeiro.

Dia 18 - Hautacam/Tramassel
Dia previsto para a subida ao Hautacam e Col du Tramassel.
Como não consegui arranjar a tempo um carreto 27 para simplificar um pouco a dureza das subidas a que me tinha proposto, tive que utilizar a cassete 12/25 montada na minha bike.
Um bocado apreensivo no início, mas com o "galgar" dos kms fui ganhando confiança.
Assim com a minha asfáltica Look 595 ProTeam equipada com pedaleiro compact e cassete 12/25, como companheira, dei início à minha aventura.
Saí de casa pelas 08h30, cruzei Argelés e entrei na D100 que logo à saída da cidade dá início à subida ao Hautacam/Tramassel, durante 17 intermináveis kms, onde a pendente média nunca baixou dos 7%.
O 1º. km serve para tomar contacto com aquele colosso e os 4 seguintes mantêm-se entre os 7 e 8% de média num traçado bastante curvilínio e até Artalens com uma pequena rampa a 12% após passar as povoações de Ayros, Arbouix e Souin.
Depois de abandonar o núcleo de St André, seguiu-se o traçado mais exigente de toda a escalada com 3 kms em pendente média entre os 9 e o 10% em sucessivas curvas de ferradura.
Depois de passar uma ladeira rochosa comecei a ver lá no alto o final do meu suplício, mas a pendente ainda se mantinha a rondar os dois dígitos.
Nos últimos 3/4 kms a pendente baixou paulatinamente dando algum descanso às pernas já a denotar algum cansaço.
Foi com um sorriso nos lábios que entrei no Parque Auto da Estação de Ski do Hautacam.
Um dos meus objectivos estava cumprido.
Ali me mantive um pouco a apreciar aquela ampla e espectacular paisagem.
Foi uma subida impressionante e não vou esquecer nunca aquele panorama impressionante sobre les Gaves de Pau, consoante ia ganhando altitude.
Dia 20 vou "mandar-me" á minha conquista do Col do Tourmalet pela vertente de Luz-St Sauveur.


Dia 20 - Col du Tourmalet
Este foi o dia programado para a subida ao "Rei dos Pirinéus" . . . o mítico Col du Tourmalet!
A subida começou para mim a partir de Pierrefitte-Nestalas, onde saí para entrar na D918.
Sempre em ascensão cheguei a Luz -St Sauveur, onde a "coisa" começa a complicar-se com a pendente média a rondar os 6%.
Com a estrada molhada e a pendente a subir de média, havia que encontrar rápidamente um ritmo de subida que me levasse ao alto, pois era esse o meu grande objectivo.
Pensei algumas vezes no carreto de 27 dentes, o jeitão que me dava, pois ao czt para Betpouey esgotei a cassete numa rampa de 13%.
Mas nem me senti muito desgastado e tinha boas sensações.
Lá fui subindo ultrapassando uns e sendo ultrapassado por outros "locos de las cumbres" como dizem os espanhóis e ao passar o Bar-Restaurante "La Gaubie" o nevoeiro desceu repentinamente e apenas conseguia ver uns 10 metros à minha frente.
Fui subindo e o tempo passava, sem saber onde me encontrava na realidade, pois a visibilidade era quase nula.
Atormentava-me não saber se já estava perto, ou se ainda faltavam muitos kms.
Fiquei assim impossibilitado de apreciar o Macizo de Neouvielle, que sabia ficar à minha esquerda e o Midi de Bigorre à minha frente. Ansiava ver aquele grande Z que antecedia a chegada ao "Olimpo" do ciclismo . . . e poder olhar para a estátua erguida a Octave Lapize a 2115 metros de altitude e dizer. Finalmente cheguei e cumpri o meu segundo objectivo!
A cerca de 3 kms do final, o nevoeiro deu lugar a um dia soleado e fui obrigado a parar. Os meus olhos depararam com uma paisagem surreal e parecia ter chegado ao céu. Era de facto uma paisagem não visível a qualquer terráqueo. É necessário ir lá a cima para ter esse previlgégio.
Encontrava-me acima das núvens e desta irrompiam imensos picos montanhosos criando uma imagem de sonho. Só por isso valeu bem o esforço.
Outro companheiro olhava também extasiado para aquela paisagem e a quem pedi para me tirar uma foto.
Olhando para o alto já vislumbrava o alto e um sorriso aflorou-me nos lábios. Apesar do cartel que indicava a pendente média de 10% já nada me impediria de conquistar aquele cume e pedalei em direcção à glória . . . aquele momento que muitos desejamos, mas que alguns não têm coragem de enfrentar. Um dos meus sonhos iria ser realizado . . . A subida ao Col du Tourmalet que tantas vezes vi subir os gandes do ciclismo mundial em directos do Tour de France e outros como eu quando ali passava de carro e dizia para a minha esposa . . . Não hei-de abandonar a bicicleta sem um dia subir ao Tourmalet. Missão cumprida!!!


Dia 21 - Col du Soulor/Col d'Aubisque
Dei início à minha última façanha nestas mini férias em Ayzac-Ost, subindo à parte alta de Argelés-Gazost para entrar logo de seguida no espectacular Val d'Azun, o Éden dos Pirinéus, "um vale selvagem e luminoso, o País dos Moinhos em pleno Lavedan, a mão aberta nos seus sete vales" como citava Vitor Hugo.
Os primeiros kms foram um pouco pesados pois as minhas pernas ainda acusavam o desgaste do dia anterior na subida ao Tourmalet, com os seus 2115 m de altitude.
Até Arras-en-Lavedan a pendente média manteve-se sempre nos 8% com algumas rampas nos dois dígitos.
Ao chegar às belas pradarias do Val d'Azun tive então oportunidade de aliviar os músculos um pouco doridos, pois nos kms seguintes a pendente nunca ultrapassou os 5%.
Durante este percurso tive oportunidade de ver alguns dos mais belos vales dos Pirinéus . . . e então de bicicleta é coisa de outro mundo . . . simplesmente fantástico!!!
Para trás ficaram as belas localidades de Aucun e Marsous. Mas o pior estava para chegar e o descanso acabou junto à bonita igreja fortificada de Arrens, o centro do Val d'Azun e seguiram-se 7 terríveis kms onde a pendente média se manteve sempre nos 8, 8,5%, com várias rampas acima dos 10% e uma delas, junto a uma ponte metálica de cor verde a atingir os 17% de inclinação.
Um km mais à frente comecei a vislumbrar o final desta 1ª. parte, o Col du Soulor, o casario dos Bares e Restaurantes que indicam o ponto mais alto.
Mas ainda tinha que penar 4 kms até atingir o cume e foi com plena satisfação que parei a minha "asfáltica" junto à placa indicativa do Col du Soulor a 1474 m de altitude.
Por ali me mantive algum tempo alimentando-me e hidratando-me para continuar o objectivo a que me tinha proposto. Na mesma tirada, atingir o Col d'Aubisque!
As pernas doiam-me mas não me iriam impedir de pedalar os ainda 11 kms que faltavam para o Aubisque.
à minha frente encontrava-se o impressionante "Cirque Du Litor" com os seus vales profundos e verdejantes e as suas altas montanhas que pareciam ir abater-se sobre mim a qualquer instante. Estava extasiado!!!
Olhei ao longe a montanha em cujo cume estava assinalado o Col d'Aubisque e aquela soberba estrada que cortava e perfurava a montanha em dois explendorosos túneis escavados na rocha.
Não havia volta a dar, não ía perder esta oportunidade. Sempre levava o telemóvel para chamar a "assistência familiar", caso houvesse algum imprevisto.
É indescritível a beleza do "Cirque du Litor". Sentí-me um previligiado por pedalar naquelas paragens.
Apenas os 5 últimos kms me fizeram sofrer bastante, pois ainda estava machucado do dia anterior, mas consegui o meu objectivo. Atingí o Col d'Aubisque com os seus 1740 m de altitude numa subida fantástica.
Tão depressa não vou esquecer esta semana fantástica.
Voltarei para conquistar outros cumes, talvez o Col d'Aspin, Luz-Ardiden ou Pla d'Adet, quem sabe!!!


Fiquem bem
Vêmo-nos nos trilhos
AC

Comentários

Agnelo disse…
Caro amigo, parabéns pela aventura magnífica. Estou roído de inveja. Também estive nos pirinéus há uns dias, mas do lado espanhol. Realmente a beleza e a grandiosidade dessas montanhas deixam-nos extasiados. Tive pena de não levar a bicicleta mas em breve lá voltarei.
1 Abraço

Agnelo
LR disse…
Caro AC,
Pelo que percebo, as férias foram óptimas. Fiquei verdadeiramente impressionado com a(s) façanha(s)! Qual é o segredo, mesmo? Fazer subidas destas "em férias" não é, de facto, para todos. Parabéns pela excelente forma. As paisagens lá "no alto" também devem ter dado uma ajuda na recuperação fisica. Imagino a sensação de chegar (de bike!) a estes cumes miticos do ciclismo internacional. Um abraço!
LR
BikesTrilhoseTralhos
Varadero disse…
Que belas férias, as paisagens das fotos são muito interessantes quem sabe um dia me junte para umas férias por aí.
Para já continuo a aguardar a chegada da minha nova asfáltica....quem sabe daqui a uns anos possa fazer companhia!

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