segunda-feira, 16 de junho de 2014

De Finisterra a Muxia e Costa da Morte até Laxe"

Logo pela manhã, ao acordar, a primeira coisa que fiz, foi espreitar pela janela do quarto do "hostal" e verificar o tempo. Nada animador! Muito nublado e a ameaçar chuva a qualquer momento.
Mais uma valente molha estaria no horizonte, a qualquer momento.
Valeu-nos o aquecedor do quarto, que nos enxugou a roupinha durante a noite, ficando prontinha para outra sessão aquífera!
Partimos cedo do Hostal Mariquito, onde ficámos alojados e duas centenas de metros à frente parámos num bar que abria cedo e que já tínhamos investigado no dia anterior.
Ali tomámos o "desayuno con o café com leche e croissant" da praxe e fomos até ao "Fim da Terra" (Finisterre), o ponto mais ocidental de Espanha e km 0 do Caminho de Santiago.
Descemos as rochas do cabo para visitar a famosa bota cravada sobre uma rocha e o local onde os caminheiros que chegam ao fim do caminho, queimam as suas botas e assistem ao por do sol, naquele bonito local.
Nada disso fizemos, e ainda bem!!
Depois de registar o momento com uns cliques das nossas digitais tirámos a foto da praxe no Km 0 e partimos verdadeiramente para o segundo dia e também para a segunda grande molha, pois tinha começado a chover abundantemente.
Começamos logo com uma subida em asfalto de dura pendente e com tal carga de água que mal se via 20 metros á frente. Esta chegou logo ao osso. Não houve "chubasquero" que a aguentasse!
Descemos para a primeira localidade do percurso, La Insua, pela estreita e muito escorregadia calçada romana da Porta de Marcos, onde pedalar e segurar a bike apeado, se revezavam.
Até Lires. com passagem pela Insua, S. Martinho de Duio, Hermedesuxo, Padris e a A Cañosa, o percurso foi bastante rochoso, com um subir e um descer constante, por trilhos e bosques de coníferas, pisando o território da legendária cidade romana de Dugium, onde enviados pela Rainha Lupa, chegaram os discípulos com o corpo do Apóstolo Santiago.
A partir de Lires, passámos o Rio Castro e fomos ganhando altura até ao Facho do Lourido, a cota mais alta da etapa até Muxia, e antiga atalaia, onde se acendiam fogueiras para alertar dos perigos a quem se acercava daquelas praias.
Uma longa e inclinada descida, com uma panorâmica deveras idílica, levou-nos até às proximidades de Xuramantes, onde ftetimos à esquerda para a linda praia de Lourido, com as suas bonitas dunas de areia branca.
Este bonito percurso levou-nos a cruzar os belos "poblados" de Frixe, Guisamonde, Morquintián, Martiñeto e Cuño.
Alcançada a povoação de Lourido, Muxia estava já no nosso horizonte.
Depois da passagem pela praia de Lourido, foi um instantinho até Muxia, onde chegámos por um caminho lageado que contemplava uma paisagem fantástica, onde sobressaía "A Ferida", o monumento mandado erguer junto ao Santuário da Virxe de la Barca, em homenagem aos voluntários que durante meses, limparam as praias da Costa da Morte, das 63 mil toneladas de combustível derramado, pelo naufrágio do petroleiro "Prestige", em Novembro de 2002.
A Costa da Morte, é selvagem e remota.
É assim denominada por causa dos muitos navios perdidos em tempestades, ou esmagados contra as rochas, ao longo dos séculos.
Tivemos oportunidade de ver um deles, o "Prima", depois de passarmos a fenomenal zona do Cabo Vilán, mais á frente, que se encontrava no fundo do mar e com a força da invernia, foi aventado contra as rochas, encontrando-se em fase de desmantelamento.
Descemos junto ao Santuário da Virxe de la Barca, onde com tristeza verificámos in loco, os estragos provocados pelo incêndio que o fustigou no dia de Natal de 2013, causado por um raio.
Demos também uma olhadela pela famosa pedra de Abalar, cujo movimento garante boa sorte .
Depois de montes de clics com as nossas digitais, tivemos que continuar, o tempo não parava e tínhamos um objetivo, a que não nos poderíamos alhear . . . apenas tínhamos 5 dias para completar esta aventura.
Parámos mais à frente, num restaurante junto ao porto marítimo para comer um belo "raxo e beber unas cañas".
Entretanto voltara a chover, mas, quando estávamos de saída, lá tivemos mais um intervalo chuvoso.
O cabo Vilán, via-se ao longe e mal sabíamos o que nos esperava. Um dos troços mais bonitos e difíceis desta etapa.
O cabo Vilán, de incrível beleza, foi o primeiro farol a funcionar com luz eletrica em Espanha
Com 25 metros de altura e construído sobre um aglomerado de rochas a 105 metros do nível do mar, a sua luz alcança as 40 milhas, sendo um dos faróis mais potentes da costa.
As imediações do farol são de uma espetacular beleza e a perspetiva do farol, muda à medida que nos afastávamos pela costa. Foram quilómetros, onde não conseguíamos evitar um soslaio para trás. Brutal!
Mais à frente, seguiu-se o troço mais perigoso e o mais adrenalínico de toda a costa, mas também uma das paisagens mais atraentes, sem esquecer as belas aldeias piscatórias entre Camelle e Arou.
O Cemitério dos Ingleses, foi um dos locais que nos despertou a atenção, apesar de não termos descido ao local. Vimo-lo do trilho sobranceiro, por onde pedalávamos.
Diz a história, que um navio inglês, o "Serpent", se afundou perto desta zona, por causa de um forte temporal, morrendo 173 homens, que ali estão enterrados.
Ainda com o cabo Vilán à vista e também o cabo Touriñan, que se adentra pelo oceano e o 2º. mais ocidental de Espanha, continuámos por este espetacular percurso, de vários faróis e grande diversidade paisagística, quase sempre olhando para o lado do mar e de frente para oeste.
Faróis, praias, dunas, rios falésias, florestas, castros, dólmenes e pitorescas vilas de pescadores, sempre com vista para o mar.
Um percurso de btt que nos leva a um mundo de sensações únicas e que só podem ser apreciadas com a visita a esta espetacular Costa da Morte.
Vale ainda referir a passagem pelas castiças aldeias e singelos povoados de  A Baiuca, Figueira de Arriba, Os Muiños, Merecho, Leis de Nemancos, Porto de Cereixo, Ponte do Porto, Dor, Xaviña, O Cruceiro, As Carballas a enorme e lindíssima Camariñas, Arou, Camelle, Mórdomo e finalmente Laxe, onde demos por finalizada esta segunda etapa, após 101 kms adrenalínicos e de muita beleza.
Ficamos alojados junto ao porto marítimo, no Hostal Bahia, já em pulgas para dar início ao terceiro dia. Queríamos mais como o que tínhamos acabado de concluir.
Agora havia que repor energias com uma boa dose gastronómica, umas "cañas" para hidratar e umas horinhas de sono para retemperar.
Já só faltavam 300 kms para os restantes 3 dias planeados para chegar de novo a Santiago de Compostela.

Fiquem bem.
Vêmo-nos nos trilhos, ou fora deles.
AC

Filme
 

1 comentário:

Silvério disse...

Simplesmente DELICIOSO! São as sensações que me invadem ao ler esta reportagem, o texto e as fotos, sobre a extraordinária e maravilhosa aventura dos Manos Cabaço!
Grande Abraço
Silvério