sexta-feira, 13 de junho de 2014

"De Santiago de Compostela ao Fim do Mundo (Finisterra)"

Aproveitando alguma disponibilidade do meu irmão Luís, com um empurrãozinho do feriado do 10 de Junho, idealizámos uma forma de gastarmos os 5 dias de forma mais proveitosa, fazendo o que gostamos e como gostamos. Aventura em estado puro e em completa autonomia.
Os "Caminhos" é algo que nos move e estiveram já por várias vezes em agenda, não sendo ainda nenhum percorrido, por este, ou por aquele motivo.
No ano passado, não pude fazer o GR113 (Camiño de Tajo) por questões de saúde e este ano . . . era o dia D!
Tinha já planeado ir fazer o Caminho do Interior, mesmo a solo, porém a disponibilidade limitada do meu irmão e a vontade de "embarcar numa proeza guerreira de cavaleiros andantes" levou-nos a esta fantástica aventura.
Tínhamos 5 dias para percorrer o caminho de Finisterra e Muxia, continuar pela Costa da Morte, Costa de Dexo e Costa Ártabra até Ferrol com passagem pelas ciclovias da A Corunha e terminar percorrendo o Caminho Inglês, para terminar de novo em Santiago de Compostela.
Preparámos então as bikes, montámos os alforges e carregámo-los com o que considerámos estritamente necessário para concluirmos o nosso projeto, mas ainda assim, não conseguimos baixar o binómio bike/alforges dos 25 quilos. Havia muito puxar pelo "músculo", mas, como diz o ditado . . . quem corre por gosta não cansa!
Saímos em direção a Santiago pelas 15h30 da passada sexta feira, dia 6, na viatura do meu irmão e já com alojamento marcado na Hospederia Via Lucis junto ao campus universitário.
Chegámos tarde e a más horas, pois não conseguimos resistir á boa gastronomia e excelente "pinga" da Dona Júlia, em Chaves.
Dar com a hospederia, foi outra aventura, mas lá conseguimos entrar.
O quartos era um pouco austero, ou não estivéssemos num convento, mas acolhedor e o ideal para descansar, pois a viagem tinha sido longa.
Muita simpatia, por parte da rececionista, que até nos deixou ficar a viatura estacionada gratuitamente entre as árvores do jardim, até que chegássemos da nossa aventura.
A noite, de longa nada teve, pois a ansiedade de começar levou-nos a um acordar "temprano".
Preparámos calmamente as bikes e material necessário para a nossa pequena odisseia, verificámos cuidadosamente o estado das bikes e depois de olear correntes, calibrar gps e conta kms, rumámos á Plaza de Obradoiro, o nosso ponto de partida e também de chegada.
pouco passava das 07h quando começámos a pedalar.
Aquela hora a imponente catedral parecia maior com a ausência de pessoas e a plaza era quase só nossa.
Procurámos um sitio para "desayunar" e tivemos sorte em encontrar a única aberta no local, onde bebemos o normal "café com leche e croissant con mantequilla e mermelada", seguindo-se o "café solo e cortito"
Depois de sairmos de Santiago em direção a Rio Xar, onde começámos logo a ver os famosos "cairns", montes de pedrinhas que os peregrinos utilizam para lembrar os seus entes queridos.
Passámos pela Portela de Villestro, onde voltámos a "desayunar" no Restaurante Alto de Vento, Ventosa e Aguapesada, seguindo-se um fantástico trilho entre frondoso arvoredo, com muita pedra e raízes a dificultar a progressão, em sentido ascendente, por vezes com forte declive, a obrigar-nos a um esforço intenso, para avançar os 4 kms de esforço contínuo ao Alto do Mar das Ovelhas.
Depois de Carballo e Transmonte, os nossos olhos brilharam com a beleza da Ponte de Maceira, datada do Séc. XIV, sobre o Rio Tambre, com este a correr em pequenas cascatas e com antigos moinhos e casas senhoriais.
Saímos daquele belo recanto medieval e seguimos para a Chancela e Negreira, onde voltámos aos trilhos fantásticos, com a passagem pelo Bosque da Taberna Nova, uma serrania de floresta de carvalhos e castanheiros, passando depois a uma linda paisagem pontilhada de hórreos em granito (espigueiros) e inúmeras explorações agropecuárias.
A chuva, que quase sempre nos tinha acompanhado, começava agora a ser mais persistente e a dificultar um pouco a progressão, com os caminhos a ficarem encharcados e mais escorregadios.
Passámos Zas, Rapote e À Rena, antes de chegarmos a Villaserío, local habitual de paragem de peregrinos, no Café "A Nossa Casa", onde carimbam as credenciais e se alimentam, com os belos "bocadillos" ali servidos.
Nós não fugimos à regra e comemos um belo "bocadillo", acompanhado dum belo par de loiras "cañas"!
Abandonámos o café e à passagem por O Cornado" a chuva tornou-se diluviana e bastante incomodativa. Já chegava bem "ao osso"
Os caminhos transformaram-se em pequenos ribeiros e alguns mais pareciam rios!
Parámos em As Maroñas debaixo do  telheiro de um café, apenas para guarda nos alforges, a máquina fotográfica e o telemóvel, dos quais até fiquei com dúvida se ainda trabalhariam no dia seguinte!
A solução lógica era não parar, se queríamos chegar a Finisterra. manter o corpo quente evitando paragens. Acho que foi uma boa decisão e que nos levou até Finisterra.
Lá fomos pedalando, por vezes sem saber bem o que pisávamos e outras vezes mais navegando, com os alforges quase a fazer de boias em algumas seções. Que aventura!!!
Passámos Santa Mariña, A Gueima e chegámos a Oliveiroa, através da sua estreita ponte sobre o Rio Xallas. Um local habitual de fim de etapa, mas nós tínhamos que continuar.
Sempre sob chuva intensa, cruzámos O Logoso e ultrapassámos as suaves subidas até Hospital, com continuação até ao Cruzeiro da Armada, onde começámos a avistar Cée.
Apesar da chuva, ansiávamos ver o mar e foi do alto do Cruzeiro, que o avistámos pela primeira vez.
Fomos então absorvidos pela sensação de que íamos terminar bem a nossa aventura nesta primeira etapa, que inicialmente tínhamos programado até Muxia. Mas até Finisterra, era já um bom avanço, derivado à intempérie que caiu sobre nós.
Corcubión e a Baia de Cée, estavam já ao nosso alcance, mas não foi nada fácil chegar lá.
A longa, pedregosa e irregular descida, que mais parecia um rio, era quase interminável e, parte dela, teve de ser a segurar a bicicleta, com os punhos bastante doridos, já a clamar por algum descanso.
O nosso primeiro dia estava quase cumprido.
Passámos aquele grande aglomerado habitacional, de Cée e Corcurbion e continuámos por A Amarela, Sardiñeiro de Abaixo e Escaselas, para finalmente entrarmos em Finisterre.
Foi um prazer incrível e uma verdadeira paixão, quer pela beleza envolvente, quer pelo convívio puro e familiar, na excelente companhia do mano Luís.
O stress desapareceu e sentimo-nos inebriados pelos elementos paisagísticos, culturais e históricos, apesar de termos concluído este primeiro dia debaixo de intenso temporal, nomeadamente nos últimos 60 kms.
Ficámos alojados no Hostal Mariquito e depois de um reconfortante banho, fomos até ao porto marítimo degustar um belo "Raxo" e uma bela "botella" de um branquinho bem "gallego", que acabou por em nada contribuir para a bela e adormecida noite que se seguiu, pois o cansaço e a dureza da etapa, acabou por se antecipar.
Os primeiros 90 kms estava cumpridos. Faltam agora 401 para o final.
No dia seguinte, esperava-nos a ligação de Finisterra a Muxia e Laxe, já em pleno coração da Costa da Morte e as suas praias de beleza selvagem.

Fiquem bem.
Vêmo-nos nos trilhos, ou fora deles
AC

1 comentário:

Silvério disse...

Bonito e sensibilizante "Mano a Mano"! Obrigado pela partilha de tão singela aventura! Muitos Parabéns
Grande Abraço
Silvério